Confraria da Urtiga

A urtiga, típica na Beira Alta, é uma planta com uma diversidade de utilizações, nomeadamente na gastronomia pela sua riqueza em vitaminas. Em entrevista, Manuel Paraíso, confrade da Confraria da Urtiga, explica quais as características e utilizações desta planta única.

A urtiga é conhecida como a planta das mil virtudes. Quais as suas características e mais-valias?

A urtiga é uma planta silvestre que cresce de forma espontânea nos campos. O nome urtiga provém do latim Urere, que significa “queimar”, uma alusão ao efeito dos seus pelos urticantes que causam irritação quando em contacto com a pele. Estes pelos cobrem toda a superfície das folhas e dos caules da planta e têm a função de proteção. Não obstante persistir na memória de muitos este caráter, raramente é reconhecida no seu verdadeiro valor. A urtiga constituiu-se como alimento de referência em muitos dos períodos marcantes da História. Em território nacional o seu consumo está associado a épocas de fome, em que era consumida na forma de uma sopa muito rudimentar. Os levantamentos efetuados em Fornos de Algodres registam o seu consumo há muitas décadas, com um pico de utilização no decorrer do período de racionamento alimentar que coincidiu com a Segunda Grande Guerra. Na agricultura biológica são cada vez mais retomadas as suas potencialidades, como meio para se garantir um reforço do sistema imunitário das plantas, mas também na proteção contra doenças e pragas. Também na indústria têxtil, onde a fibra da urtiga concorre com os produtos de linho, na farmacêutica, onde é utilizada na prevenção de tumores benignos da próstata, e na cosmética proliferam as suas utilizações.

O que esteve na origem da criação da Confraria da Urtiga?

A Confraria da Urtiga viria a ser criada em maio de 2009, em Fornos de Algodres, no âmbito das IV Jornadas de Etnobotânica e do I Fim-de-Semana da Urtiga. Ao longo das várias edições houve o cuidado de revisitarmos algumas plantas bravias que sabíamos terem integrado a dieta das populações. Em torno das plantas eleitas para cada ano era preparado um almoço temático. Foi assim com os saramagos, as beldroegas, os labrestos, as merugens. No entanto, acabaríamos por nos render à urtiga quando fomos explorando o seu potencial e versatilidade. Surgiu a ideia de criar uma confraria dedicada a esta planta que promovesse a reintrodução do vegetal na gastronomia local. Assim, a sopa de urtigas é agora de forma incontornável um prato de referência local. A confraria acabaria por ter um papel importantíssimo na recuperação de um alimento tantas vezes remetido para um plano gastronómico secundário, mas onde as suas virtudes nutritivas, como o facto de ser duas vezes mais rica em ferro do que os espinafres e o de conter uma quantidade de vitamina C seis vezes superior à da laranja, impunham a reconstrução da sua imagem.

Quais as principais atividades promovidas?

A Confraria da Urtiga é a principal organizadora das Jornadas de Etnobotânica de Fornos de Algodres e do Fim-de-semana da Urtiga. Para além disso, tem vindo a promover diversas iniciativas, entre as quais workshops, com o objetivo de potenciar esta planta nas suas múltiplas utilizações. Foi o caso do papel de urtiga, do sabão, do chorume e, mais recentemente, do fabrico artesanal de chocolate com recheio de urtiga. Para além disso, dinamizamos oficinas onde ensinamos os participantes a colher, preparar e cozinhar a planta. No âmbito destas iniciativas designamos o 1º de Maio como Dia do Trabalhador da Urtiga e nesse dia reunimos um grupo de confrades e voluntários que prepara a quantidade de urtiga suficiente para o Grande Capítulo de cada ano. Temos ainda procurado desenvolver e apoiar a criação de produtos inovadores. Foi o caso da Alheira de Urtiga e da mais recente Urtigueira, bem como de produtos que em breve estarão no mercado, como a queijada de urtiga e o queijo. Pese embora ainda numa fase muito embrionária, estamos a explorar a fileira têxtil, tendo desenvolvido o primeiro fio de urtiga, com a colaboração de uma associação de Tondela.